Narrativa verde, financiamento fóssil: A CAF diante de seus compromissos climáticos

Darion Queen / Unsplash.

2026

O Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) destaca-se por seu potencial como peça-chave para impulsionar a transição energética na região. A instituição manifestou um firme compromisso de se tornar o banco verde do continente, aspirando a liderar o financiamento de projetos que promovam um desenvolvimento sustentável e resiliente, alinhado às metas climáticas globais. Dada sua capacidade de mobilizar recursos e sua influência nos mercados regionais, a CAF tem o potencial de desempenhar um papel estratégico na transformação rumo a economias de baixo carbono.

Esse papel adquire uma urgência especial no contexto energético de 2026. A guerra no Oriente Médio, iniciada em 28 de fevereiro, e a forte interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz expuseram novamente a vulnerabilidade dos mercados energéticos diante de choques geopolíticos e de abastecimento. Nesse contexto, as decisões das instituições multilaterais de desenvolvimento podem contribuir para diversificar a matriz energética regional ou aprofundar a dependência de novas infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis.

No entanto, o posicionamento verde da CAF coexiste com tensões significativas em sua prática institucional. Sua lista de exclusão não inclui restrições ao carvão, ao petróleo ou ao gás por motivos climáticos, ao contrário de outras instituições financeiras de desenvolvimento que o fizeram. No caso do gás, a CAF vai além de simplesmente não excluí-lo, promovendo-o ativamente dentro de sua agenda de transição energética, classificando-o como "recurso renovável" e continuando a financiar infraestrutura de gás. Tal classificação tem sido amplamente questionada pelas evidências científicas, que mostram que as emissões de metano — principal componente do gás — ao longo de toda a cadeia apresentam um potencial de aquecimento global significativamente superior ao do dióxido de carbono em horizontes de curto prazo; por isso, devem ser incorporadas a qualquer avaliação de compatibilidade com as trajetórias climáticas. Essa avaliação deve considerar também os riscos de lock-in.

 

 

 

A essas tensões soma-se uma dimensão institucional. A disponibilidade limitada de informações sistematizadas sobre as operações da CAF, particularmente no setor privado, dificulta a avaliação integral dos impactos sociais, ambientais e climáticos dos projetos financiados. Em comparação com outras instituições financeiras de desenvolvimento (IFD), persistem lacunas em matéria de transparência e prestação de contas, o que afeta seu posicionamento como banco de desenvolvimento alinhado à sustentabilidade.

Nesse contexto, o presente relatório tem como objetivo analisar a coerência entre a narrativa institucional da CAF como banco verde e suas decisões de financiamento no setor energético. Para isso, são examinados seus investimentos em gás fóssil, os impactos associados e o marco internacional aplicável em matéria de mudanças climáticas e financiamento sustentável. A partir dessa análise, identificam-se lacunas e propõem-se elementos que permitam fortalecer seu papel em uma transição energética justa, coerente com os compromissos climáticos internacionais.

 

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