
O rio Xingu está sendo silenciado, mas não seu povo
Amazon Watch / Maíra Irigaray
Um rio é sempre um caminho, sustento e memória.
Na Volta Grande do rio Xingu, no coração da Amazônia brasileira, a água não apenas fluía: ela ensinava quando plantar, quando pescar, quando celebrar.
Alí, a vida seguia o ritmo do rio.
Mas isso começou a mudar em 2010, quando se planejava a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. E uma pergunta silenciosa começou a surgir: Quem decide o destino da água?
Seis anos depois, em 5 de maio de 2016, quando a barragem foi inaugurada, quase 80% da vazão do rio Xingu foi desviada.
Já em 2018, organizações e comunidades alertavam que o plano de manejo da vazão imposto ao Xingu para a operação da usina era um prenúncio de um futuro de escassez.
Aquele aviso tornou-se realidade.
Hoje, trechos inteiros do rio estão secos. Mais de 100 quilômetros da Volta Grande perderam seu fluxo natural. A água, que antes sustentava a biodiversidade e os modos de vida locais, não corre mais como antes.
Sem água suficiente, os peixes pararam de se reproduzir. Não há desova há três anos.
O silêncio do rio se transformou em fome, incerteza e devastação.
A morte dos peixes não é apenas um impacto ambiental: é o colapso de um modo de vida.
Comunidades indígenas, ribeirinhas e pesqueiras perderam não apenas sua principal fonte de alimento, mas também sua autonomia e sua conexão com a terra.
Hoje, o legado de Belo Monte é um acúmulo progressivo de degradação ecológica, social e cultural.
No entanto, essa história ainda não terminou.
Tempo de justiça para o rio Xingu e a vida que ele sustenta
Dez anos após o início das operações da barragem de Belo Monte, os impactos relatados foram confirmados, mas algo imprevisto também se fortaleceu: a resistência.
As comunidades afetadas permanecem organizadas, ativas e determinadas. Elas continuam denunciando a situação, exigindo reparações e defendendo seu direito de viver às margens do rio.
Essa força é visível hoje nos protestos contra novos projetos na região.
Porque para essas comunidades, a luta não é apenas contra um projeto; é pela continuidade da vida.
Hoje é um momento de justiça para elas
A denúncia contra o Estado brasileiro por sua responsabilidade internacional neste caso tramita na Comissão Interamericana de Direitos Humanos desde 2011, aguardando uma decisão que poderá marcar um ponto de virada para as comunidades da bacia do Xingu.
A denúncia contém os elementos legais e probatórios necessários para que a Comissão a admita, determine que ocorreram diversas violações de direitos humanos e encaminhe o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos, cuja decisão poderá estabelecer um precedente para a regulamentação estatal de megaprojetos no contexto da crise climática; a participação pública; e a proteção de povos indígenas, comunidades tradicionais e ecossistemas-chave como a Amazônia.
Contudo, enquanto o processo avança lentamente, os impactos continuam a piorar a cada dia. A urgência não é legal, é humana. Cada ciclo sem resposta é mais um ciclo de seca, perda de biodiversidade e acúmulo de violações.
Neste caso, a decisão não é apenas uma questão institucional; é uma questão de esperança para a vida daqueles que dependem do rio.
O que aconteceu com Belo Monte tornou-se um símbolo.
É um exemplo claro de como projetos vendidos como “energia limpa” podem ter impactos profundos e duradouros quando ignoram os direitos humanos.
Num momento em que o mundo busca soluções energéticas para enfrentar a crise climática, não podemos repetir os antigos padrões de injustiça.
Marcella Ribeiro d'Ávila Lins Torres

Marcella Ribeiro d'Ávila Lins Torres es brasileña y abogada sénior del Programa de Derechos Humanos y Ambiente de AIDA, además de coordinadora de la Línea de Comunidades y Defensores/as, trabajando desde Brasil. Es licenciada en Derecho por la Universidad Federal de Paraíba, tiene un máster en Derecho Internacional de los Derechos Humanos de la Universidad de Notre Dame y un diploma en Abogacía para ONG por el Advocacy Hub. Se especializó en derechos económicos, sociales, culturales y ambientales; sistemas internacionales de derechos humanos y justicia climática. Es muy versada en la práctica del derecho de los derechos humanos a través del litigio, la incidencia y las campañas. Además, es responsable en AIDA de la coordinación de varios casos y proyectos con comunidades tradicionales, pueblos indígenas y personas defensoras de los derechos humanos. Coordina el equipo brasileño, siendo responsable de identificar oportunidades para expandir el trabajo de AIDA en el país. Marcella es el punto focal de AIDA en el trabajo con personas defensoras y el vínculo entre los programas de Derechos Humanos y de Clima.